Porque vê a burla e quem revê o anúncio não: o que é o cloaking

Atualizado a 7 de novembro de 2026 · 3 min de leitura

Neste artigo
  1. Como decide quem é
  2. Truques documentados
  3. O que vemos
  4. Porque lhe interessa
  5. Limites

Em resumo: muitos anúncios de burlas passam a revisão porque a página não mostra o mesmo a toda a gente. Um programa decide em décimas de segundo quem é o visitante. Se parecer uma vítima, vê a notícia falsa com o famoso. Se parecer um revisor, um antivírus ou um investigador, vê um blogue inocente ou um erro. Chama-se cloaking («encobrimento») e explica porque, às vezes, denuncia um site e quem o revê não vê nada.

Como decide quem é

Quando clica no anúncio, a sua visita passa por um sistema intermédio que analisa vários dados: de que país entra, com que dispositivo e navegador, de onde vem e se a sua ligação parece a de uma empresa de segurança. Com isso, envia-o para um sítio ou para outro.

Não é precisa tecnologia rara. Costuma usar-se software comercial de medição publicitária, o mesmo tipo de ferramenta que qualquer agência usa para distribuir tráfego. Em março de 2026, a Confiant e a Infoblox publicaram quatro meses de investigação sobre o abuso de um destes programas: 15.500 domínios maliciosos, cerca de 9.000 deles registados de propósito, com páginas limpas para quem parecia um revisor. A categoria dominante era a das burlas de investimento.

Truques documentados

  • Uma pré-visualização que não é a real. A Bitdefender analisou 310 campanhas na Meta em fevereiro e março de 2026, com mais de 26.000 aparições de anúncios. Em Itália, os anúncios mostravam como pré-visualização o site de restaurantes reais de Florença. O sistema automático via um restaurante, e a vítima acabava noutro sítio.
  • Medir se lê. A Whalebone estudou em julho de 2026 mais de 400 domínios de falsos meios de comunicação. A página registava até onde descia, quanto lia, se mudava de separador e em que ponto saía.
  • Mudar de domínio sem parar. Quando um domínio cai, entra outro. Vimo-lo em direto: menos de 14 horas entre a suspensão de um domínio e o seu substituto.

O que vemos

Os nossos dados encaixam nisto, embora não possamos ver a parte interna desses sistemas.

  • Endereços descartáveis. Em 398 ligações de anúncios há 294 domínios diferentes. Uma parte parece gerada por uma máquina: séries de letras e números sem sentido. Menos de metade termina em .com. Seguem-se .info, .top, .click e .pro.
  • Ligações que respondem «não encontrado». Muitas ligações dos vídeos e blogues promocionais dão erro se as abrir diretamente, como contámos aqui. Não podemos garantir que seja cloaking, porque também pode ser uma ligação quebrada. Mas é o que veríamos se fosse, e por norma não tentamos enganar esses sistemas para que nos mostrem mais.

Porque lhe interessa

1. O site «já não existir» não significa que tenha fechado. Se um familiar lhe mostrar uma ligação e a si aparecer um erro ou uma página normal, pode ser que o sistema o tenha descartado: outro país, outro dispositivo, sem vir do anúncio.

2. Guarde provas no momento. Se vai denunciar, faça capturas do que vê, com o endereço à vista. Pode ser que a polícia ou a plataforma não vejam o mesmo depois. Anote também a data e como lá chegou.

3. Denuncie o anúncio, não apenas o site. Use a opção de denúncia da rede social a partir do próprio anúncio. Assim, a plataforma identifica-o mesmo que a página esteja encoberta.

4. Um anúncio estar publicado não significa que esteja verificado. A revisão pode ter visto algo muito diferente.

5. Passar uma análise de segurança não prova nada. Um verificador de sites pode dizer que a página está limpa porque lhe mostraram a versão limpa.

Se já deixou os seus dados, siga o guia para vítimas.

Limites

Os números da Confiant, da Infoblox, da Bitdefender e da Whalebone são deles e correspondem às suas amostras. Não verificámos por dentro como decide cada sistema dos que aparecem nos nossos dados.

Resumo semanal das plataformas de investimento fraudulentas que detetamos em anúncios nas redes sociais.Ler o relatório desta semana →

Já se registou ou já pagou?

  1. Não pague mais nada, mesmo que peçam «impostos» ou «comissões» para libertar o dinheiro.
  2. Ligue hoje mesmo para o seu banco: bloqueie o cartão e peça o estorno (chargeback) ou a devolução da transferência. Quanto mais cedo, mais hipóteses.
  3. Não instale nada do que lhe pedirem (AnyDesk, TeamViewer…). Se já o fez, desinstale-o e mude as suas palavras-passe.
  4. Apresente queixa à polícia e ao regulador do seu país. Guarde capturas de ecrã, e-mails e números de telefone.
  5. Cuidado com as empresas de «recuperação de fundos» que o vão contactar a prometer recuperar o dinheiro em troca de um pagamento: quase sempre são uma segunda burla.

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